quarta-feira, 10 de junho de 2026

 

O PONTO CEGO DO SANEAMENTO:

POR QUE OPERAMOS ETAS E ETES SEM MEDIR A VAZÃO?


No dia a dia das Estações de Tratamento de Água (ETAs) e de Esgoto (ETEs), um equipamento é onipresente: a CALHA PARSHALL. Estrategicamente posicionada na chegada das plantas, ela deveria ser o "velocímetro" do sistema.

No entanto, a realidade técnica revela um paradoxo: temos a ferramenta, mas operamos às cegas.


O PONTO CEGO DO SANEAMENTO: POR QUE A CALHA PARSHALL FALHA COMO MEDIDOR E COMO ISSO DESTRÓI A EFICIÊNCIA DO JAR TEST


No papel e nos manuais de engenharia sanitária, a CALHA PARSHALL é celebrada por sua dupla função na chegada das Estações de Tratamento de Água (ETAs) e de Efluentes (ETEs):

·         atuar como um medidor de vazão em regime de escoamento livre e, simultaneamente,

·         aproveitar o ressalto hidráulico como um excelente misturador rápido para a coagulação.

No entanto, quem vive o dia a dia da operação e da consultoria em saneamento conhece a realidade nua e crua das nossas instalações: a função de medição da Calha Parshall, na quase totalidade dos casos, foi completamente descartada.

 

DA TEORIA AO ABANDONO: O RESSALTO QUE SÓ MISTURA

                                    Nesta Calha não se mede (afogada) e nem se mistura (não existe ressalto)

Caminhando por aí, e por varias ETAs, o cenário se repete. A Calha Parshall está lá, o produto químico é aplicado, a turbulência do ressalto hidráulico cumpre o seu papel de mistura rápida para a floculação. Mas se você perguntar ao operador qual é a vazão afluente exata naquele momento, a resposta será um palpite ou um silêncio desconfortável.

A imensa maioria das plantas NÃO DISPÕE DE TABELAS DE VAZÃO ATUALIZADAS e as réguas graduadas, quando existem, estão apagadas pelo tempo ou desalinhadas. Sem manutenção, calibração e aferição dimensional da garganta da calha, a equação teórica de vazão perde totalmente a validade. A Parshall virou apenas um misturador caro.

O Paradoxo da Calha Parshall: De Medidor a Simples Misturador

Originalmente projetada para medir a vazão de canais abertos com precisão, a Calha Parshall tem sido subutilizada. Em quase a totalidade das instalações, ela cumpre apenas a função de misturador rápido. A turbulência gerada no "salto hidráulico" é aproveitada para a dispersão de produtos químicos (coagulantes), mas a sua função primordial — a medição — é descartada.

O motivo? A ausência de tabelas de vazão atualizadas e a falta de manutenção da geometria original da calha (CALHAS AFOGADAS). Sem esses dados, o operador não sabe, de fato, quantos litros por segundo estão entrando na estação.

 

 O IMPACTO DIRETO NO BOLSO E NA QUALIDADE: O VÍNCULO COM O JAR TEST

 Operar uma ETA sem o conhecimento da vazão afluente destrói qualquer tentativa de eficiência química e energética. E o reflexo mais imediato e prejudicial dessa falha está na execução do Jar Test (Ensaio de Tratabilidade em Reatores de Estática).

O Jar Test é a bússola do operador. É ele quem determina a dosagem ótima de coagulante (como o sulfato de alumínio ou o cloreto férrico) e de polímeros com base na turbidez, cor e pH da água bruta. Contudo, o ensaio fornece um resultado em miligramas por litro (mg/L).

Para transformar o resultado do laboratório em ação prática na ETA — ou seja, para regular a bomba dosadora de produto químico em litros por hora (L/h) —, a fórmula matemática exige um dado fundamental e inegociável: a vazão de entrada da água (Q).


Se a vazão real da ETA é desconhecida ou estimada para mais ou para menos, ocorrem dois cenários catastróficos:

  • Subdosagem: A água sai da ETA fora dos padrões de potabilidade da PORTARIA GM/MS Nº 888, DE 4 DE MAIO DE 2021 do Ministério da Saúde, colocando em risco a saúde pública e gerando penalidades regulatórias.
  • Superdosagem: Há um desperdício massivo de recursos financeiros com produtos químicos, além do aumento desnecessário do volume de lodo gerado nos decantadores, sobrecarregando o sistema de desidratação e destinação final.

 

CONCLUSÃO: É HORA DE ACENDER A LUZ DA OPERAÇÃO

 

Não há como falar em eficiência e modernização do saneamento — pilares tão cobrados pelo Novo Marco Legal — se continuarmos falhando na física básica do processo: medir o volume de água que entra para tratamento.

Deixar a Calha Parshall operar apenas como misturador e ignorar tecnologias de medição contínua (como o ultrassom) é manter as ETAs em uma era empírica e analógica. Conhecer a vazão correta não é um luxo técnico; é o pré-requisito básico para que ferramentas como o Jar Test funcionem, garantindo segurança hídrica, responsabilidade ambiental e saúde financeira para a gestão do saneamento.


CALHAS ACESSADAS POR “OPERADORES NINJAS”




CALHAS COM MEDIDORES MODERNOS E EFICIENTES




Nenhum comentário:

Postar um comentário

  O PONTO CEGO DO SANEAMENTO: POR QUE OPERAMOS ETAS E ETES SEM MEDIR A VAZÃO? No dia a dia das Estações de Tratamento de Água (ETAs) e de ...