O PONTO CEGO DO SANEAMENTO:
POR QUE OPERAMOS ETAS E ETES SEM MEDIR A VAZÃO?
No dia a dia das
Estações de Tratamento de Água (ETAs) e de Esgoto (ETEs), um equipamento é
onipresente: a CALHA PARSHALL. Estrategicamente posicionada na chegada
das plantas, ela deveria ser o "velocímetro" do sistema.
No entanto, a
realidade técnica revela um paradoxo: temos a ferramenta, mas operamos às
cegas.
O PONTO CEGO
DO SANEAMENTO: POR QUE A CALHA PARSHALL FALHA COMO MEDIDOR E COMO ISSO DESTRÓI
A EFICIÊNCIA DO JAR TEST
No papel e nos
manuais de engenharia sanitária, a CALHA PARSHALL é celebrada por sua
dupla função na chegada das Estações de Tratamento de Água (ETAs) e de
Efluentes (ETEs):
·
atuar como um medidor de vazão em regime de
escoamento livre e, simultaneamente,
·
aproveitar o ressalto hidráulico como um
excelente misturador rápido para a coagulação.
No entanto, quem
vive o dia a dia da operação e da consultoria em saneamento conhece a realidade
nua e crua das nossas instalações: a função de medição da Calha Parshall, na
quase totalidade dos casos, foi completamente descartada.
DA TEORIA AO
ABANDONO: O RESSALTO QUE SÓ MISTURA
Nesta Calha não se mede (afogada) e
nem se mistura (não existe ressalto)
Caminhando por
aí, e por varias ETAs, o cenário se repete. A Calha Parshall está lá, o produto
químico é aplicado, a turbulência do ressalto hidráulico cumpre o seu papel de
mistura rápida para a floculação. Mas se você perguntar ao operador qual é a
vazão afluente exata naquele momento, a resposta será um palpite ou um silêncio
desconfortável.
A imensa maioria
das plantas NÃO DISPÕE DE TABELAS DE VAZÃO ATUALIZADAS e
as réguas graduadas, quando existem, estão apagadas pelo tempo ou desalinhadas.
Sem manutenção, calibração e aferição dimensional da garganta da calha, a
equação teórica de vazão perde totalmente a validade. A Parshall virou
apenas um misturador caro.
O Paradoxo da
Calha Parshall: De Medidor a Simples Misturador
Originalmente
projetada para medir a vazão de canais abertos com precisão, a Calha Parshall
tem sido subutilizada. Em quase a totalidade das instalações, ela cumpre apenas
a função de misturador rápido. A turbulência gerada no "salto hidráulico"
é aproveitada para a dispersão de produtos químicos (coagulantes), mas a sua
função primordial — a medição — é descartada.
O motivo? A
ausência de tabelas de vazão atualizadas e a falta de manutenção da geometria
original da calha (CALHAS AFOGADAS). Sem esses dados, o operador não sabe, de
fato, quantos litros por segundo estão entrando na estação.
O IMPACTO DIRETO NO BOLSO E NA QUALIDADE: O VÍNCULO COM O JAR TEST
O Jar Test é a
bússola do operador. É ele quem determina a dosagem ótima de coagulante (como o
sulfato de alumínio ou o cloreto férrico) e de polímeros com base na turbidez,
cor e pH da água bruta. Contudo, o ensaio fornece um resultado em miligramas
por litro (mg/L).
Para transformar
o resultado do laboratório em ação prática na ETA — ou seja, para regular a
bomba dosadora de produto químico em litros por hora (L/h) —, a fórmula
matemática exige um dado fundamental e inegociável: a vazão de entrada da
água (Q).
Se a vazão real
da ETA é desconhecida ou estimada para mais ou para menos, ocorrem dois
cenários catastróficos:
- Subdosagem: A água sai da ETA fora dos
padrões de potabilidade da PORTARIA GM/MS Nº 888, DE 4 DE MAIO DE 2021
do Ministério da Saúde, colocando em risco a saúde pública e gerando
penalidades regulatórias.
- Superdosagem: Há um desperdício massivo de
recursos financeiros com produtos químicos, além do aumento desnecessário
do volume de lodo gerado nos decantadores, sobrecarregando o sistema de
desidratação e destinação final.
CONCLUSÃO: É
HORA DE ACENDER A LUZ DA OPERAÇÃO
Não há como
falar em eficiência e modernização do saneamento — pilares tão cobrados pelo
Novo Marco Legal — se continuarmos falhando na física básica do processo: medir
o volume de água que entra para tratamento.
Deixar a Calha
Parshall operar apenas como misturador e ignorar tecnologias de medição
contínua (como o ultrassom) é manter as ETAs em uma era empírica e analógica.
Conhecer a vazão correta não é um luxo técnico; é o pré-requisito básico para
que ferramentas como o Jar Test funcionem, garantindo segurança hídrica,
responsabilidade ambiental e saúde financeira para a gestão do saneamento.
CALHAS
ACESSADAS POR “OPERADORES NINJAS”
CALHAS COM MEDIDORES
MODERNOS E EFICIENTES





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