quinta-feira, 9 de julho de 2026

 

O PARADOXO DO DESABASTECIMENTO EM VÁRZEA GRANDE E A EFICIÊNCIA OPERACIONAL ATRAVÉS DO CONTROLE DA DISTRIBUIÇÃO E DA HIDROMETRAÇÃO

ANÁLISE:


No campo da engenharia sanitária, a equação do abastecimento público de água é regida pela relação direta entre a capacidade nominal de produção e a eficiência física e comercial da rede de distribuição.

Em Várzea Grande, o cenário de intermitência no fornecimento frequentemente levantaou discussões sobre a necessidade de expansão do sistema produtor, e assim foi feito com sucessivas implantações de novas ETAs.

Todavia, a modelagem matemática e o balanço hídrico das plantas operacionais revelam que a matriz do problema não reside no déficit de captação ou tratamento, mas sim na premente necessidade de INVESTIMENTOS EM MACRO/MICROMEDIÇÃO E NO CONTROLE OPERACIONAL DA DISTRIBUIÇÃO.

1. DIAGNÓSTICO ESTÁTICO DA CAPACIDADE DE PRODUÇÃO

Considerando o funcionamento contínuo (período de 24 horas por dia) das Estações de Tratamento de Água (ETAs) ativas no município, o inventário técnico apresenta uma vazão nominal combinada de 1.530 L/s, distribuída conforme os seguintes parâmetros de vazão de projeto ():

  • UP Av. Júlio Campos:
  • UP Av. Ulysses Pompeu de Campos:
  • ETA Chapéu do Sol:
  • ETA Cristo Rei:
  • ETA Imigrantes:
  • ETA Bonsucesso:

 

Para determinar o Volume Diário Bruto Disponibilizado () no sistema, aplica-se o fator tempo para o ciclo de 24 horas ():



2. MODELAGEM DO CENÁRIO DE PERDA REDUZIDA (META DE PROJETO: 30%)

Em sistemas de distribuição que carecem de setorização e controle ativo de pressão, os índices de perdas físicas (vazamentos em adutoras e redes) e perdas comerciais (submedição, fraudes e cadastros desatualizados) distorcem o balanço hídrico.

Adotando como premissa de projeto a implantação de uma infraestrutura de controle operacional que reduza e estabilize o Índice de Perda Global em 30%, determinamos o Volume Útil Líquido () efetivamente disponível para consumo regular e faturável:

 

3. AVALIAÇÃO QUALITATIVA SOBRE O CADASTRO ATUAL (75.000 ECONOMIAS)

Ao confrontar esse volume útil disponível com o universo atual de 75.000 economias formais registradas na autarquia, utilizando a densidade demográfica padrão de 3,5 habitantes por economia, o consumo per capita aparente deduzido seria:

  • Consumo Médio por Ligação Cadastrada:

  • Consumo Per Capita Teórico Base:

 

Análise Crítica do Balanço Hídrico:

O valor de 352,51 L/hab/dia está muito acima do indicador recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelas normas da ABNT para o dimensionamento de redes urbanas (que variam entre 110 e 150 L/hab/dia).

Sob o ponto de vista estrito da engenharia sanitária, este descompasso matemático evidencia uma anomalia comercial: o volume útil disponível está, na realidade, abastecendo um contingente de conexões informais e clandestinas (estimadas tecnicamente entre 37.000 e 40.000 unidades) que consomem a água tratada, mas não figuram como denominadores no cadastro comercial.

 

4. SIMULAÇÃO DE CAPACIDADE OTIMIZADA COM HIDROMETRAÇÃO EFICIENTE

Para equacionar o sistema de forma sustentável, o foco dos investimentos deve convergir para a regularização do parque de hidrômetros e modulação de pressões. Simulando o sistema sob um regime de consumo controlado e hidrometrado de 150 L/hab/dia (padrão de eficiência técnica e sustentabilidade hídrica), a demanda por economia regulada fixa-se em:

Mantendo a vazão útil de projeto de 92.534.400 L/dia (assegurada pela meta de 30% de perda), calcula-se o potencial nominal de atendimento do sistema existente:

 

  • Capacidade de Atendimento em População Efetiva ():

  • Capacidade de Atendimento em Ligações/Economias Totais ():

 

Conclusão Técnica

O balanço hídrico estruturado demonstra que a infraestrutura instalada de produção de Várzea Grande () possui robustez e suficiência estática.

O sistema detém capacidade matemática para saltar das atuais 75.000 economias formais para até 176.256 economias totalmente regularizadas e hidrometradas — um incremento potencial de 101.256 novas ligações ativas sem a necessidade de expansão das unidades de captação e tratamento (ETAs).

Os dados provam que os investimentos voltados ao aumento da produção, ao longo do tempo geraram um ciclo de retornos decrescentes e ineficiência energética.

A solução definitiva para a intermitência do sistema passa, obrigatoriamente, por investimentos intensivos em engenharia de distribuição:

·         micromedição

·         macromedição,

·         Pesquisas Pitometricas

·         setorização em distritos de medição e controle (DMCs),

·         gerenciamento de pressões com válvulas de controle

·       substituição de hidrômetros obsoletos, equalizando a oferta física à demanda real calibrada, e um

· 

PLANO DE CONTINGÊNCIA COMERCIAL: FISCALIZAÇÃO ESTRUTURADA E EDUCAÇÃO DE USO

A transição matemática do cenário atual para o modelo otimizado de 176.256 economias exige mais do que intervenções físicas na rede; demanda uma reestruturação profunda na gestão comercial do sistema. Para que o volume útil de 92.534.400 L/dia seja distribuído de forma justa, o plano de ação deve se apoiar em dois pilares simultâneos:

  • Rigorosa Fiscalização via Terceirização Especializada: A identificação cadastral e regularização do passivo de 37.000 a 40.000 conexões clandestinas exigem alta capacidade operacional e neutralidade institucional. A contratação de uma empresa terceirizada especializada em auditoria de sistemas de abastecimento e caça-fantasmas comerciais (varredura eletromagnética de redes, inspeção de fraudes em cavaletes e substituição em massa de medidores obsoletos) confere celeridade ao processo. A terceirização garante o cumprimento de metas contratuais estritas de redução de perdas comerciais, blindando a operação técnica de pressões externas.

  • Programa Conduzido de Educação de Uso e Consumo Consciente: A hidrometração em massa impõe uma mudança cultural abrupta na comunidade. Paralelamente à instalação dos medidores, é indispensável a execução de um programa permanente de comunicação social e engenharia social. O foco deve ser orientar o usuário sobre a correlação direta entre o tempo de uso, detecção de vazamentos internos invisíveis (como em válvulas de descarga e boias de reservatórios) e o reflexo financeiro na fatura.

 

Considerações Finais

Regularizar o DAE Várzea Grande não é mais uma questão de expandir o volume captado nos mananciais, mas de monitorar o volume que já é tratado.

Ao aliar a engenharia de distribuição (setorização e macromedição) a uma fiscalização de campo rigorosa e preferencialmente terceirizada, integrada a um processo pedagógico de consumo com a população, a autarquia não apenas equaciona o seu balanço hídrico, mas assegura a sustentabilidade financeira e a universalização real do acesso à água tratada.


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