Compostagem: o que é, como funciona e por que importa

Todo dia, cada brasileiro joga fora pouco mais de 1 quilo de resíduo. Somando o país inteiro, são cerca de 81 milhões de toneladas por ano, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos 2024, da Abrema.

Quase metade desse volume é matéria orgânica: casca de fruta, resto de comida, borra de café, folhas e podas de jardim. Esse material pesa no caminhão, ocupa o aterro, gera chorume e libera metano ao apodrecer sem ar.

A compostagem resolve boa parte disso. Ela transforma o que seria lixo em adubo, perto de onde o resíduo nasce. Mesmo assim, o Brasil composta apenas 0,4% do que coleta.

O ciclo da compostagem: restos da cozinha, composteira, composto pronto e horta

Como a compostagem funciona

Compostar é deixar que bactérias, fungos e pequenos animais do solo façam o trabalho, com ar e umidade na medida certa. O resultado é um material escuro, com cheiro de terra, chamado composto.

O segredo está na mistura de dois tipos de material:

TipoO que éExemplosPapel
Verdes (úmidos)ricos em nitrogêniorestos de frutas e verduras, borra de café, grama frescaalimentam os microrganismos
Marrons (secos)ricos em carbonofolhas secas, serragem, palha, papelão picadodão estrutura e deixam o ar circular

A proporção ideal é de cerca de 30 partes de carbono para 1 de nitrogênio. Na prática, isso significa sempre cobrir o resto de comida com uma camada de material seco.

O processo passa por quatro fases, segundo o manual de compostagem do Ministério do Meio Ambiente:

  1. Inicial (15 a 72 horas): os microrganismos começam a se multiplicar e a pilha esquenta.
  2. Termofílica: a temperatura passa de 45 °C e fica, em geral, entre 50 e 65 °C. É nessa fase que morrem sementes de mato e organismos que causam doenças.
  3. Mesofílica: a pilha esfria aos poucos e a decomposição continua mais devagar.
  4. Maturação (cerca de 30 dias): o composto se estabiliza e fica pronto para uso.

As três primeiras fases formam a fase ativa, que dura em média 90 dias. Em casa, o ciclo completo leva por volta de 3 a 4 meses.

Temperatura da pilha nas quatro fases da compostagem (curva ilustrativa)

A situação no Brasil

O Brasil ainda trata o resíduo orgânico como lixo comum. Os números do Panorama 2024 da Abrema, referentes a 2023, mostram o tamanho do atraso:

Indicador (2023)Valor
Resíduo sólido urbano geradocerca de 81 milhões de t/ano
Geração por habitante1,047 kg/dia
Destinação inadequada (lixões e aterros controlados)41,5%
Enviado para compostagem0,4% (cerca de 300 mil t)
Composto produzidocerca de 85,5 mil t
De cada 1.000 kg de lixo urbano, só 4 kg vão para compostagem

O problema não é falta de lei. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010), no artigo 36, inciso V, já manda o titular do serviço de limpeza urbana implantar sistema de compostagem e dar uso ao composto produzido.

O custo de não fazer aparece no clima. Matéria orgânica enterrada sem oxigênio gera metano, gás que aquece muito mais que o CO2. O setor de resíduos respondeu por 15,8% das emissões de metano do Brasil em 2020, atrás apenas da agropecuária, segundo o SEEG.

O que o município ganha

Para quem trabalha com saneamento, compostar é reduzir carga na ponta mais cara do sistema: o transporte e o aterro. Os ganhos aparecem em quatro frentes:

  • Menos chorume. O líquido escuro do aterro vem, em grande parte, da água contida nos restos de comida. Menos orgânico enterrado significa menos chorume para coletar e tratar, e menor risco para o lençol freático.
  • Aterro com vida útil maior. Cada tonelada desviada é espaço que sobra na célula. Isso adia o investimento em um aterro novo, que hoje exige licença ambiental demorada e área cada vez mais longe da cidade.
  • Coleta mais barata. O resíduo orgânico é pesado e úmido. Tratado perto da fonte, ele sai do roteiro do caminhão compactador.
  • Adubo para uso público. O composto pode ir para praças, canteiros, hortas escolares e recuperação de áreas degradadas, como prevê a própria PNRS.

Há ainda um ganho para a reciclagem. Quando o orgânico é separado na fonte, papel, plástico e metal chegam mais limpos às cooperativas e valem mais.

Como fazer: da casa à cidade

Em casa, basta uma caixa ou balde com furos, ou um canto do quintal:

  1. Faça uma camada de material seco no fundo (folhas, serragem ou papelão picado).
  2. Coloque os restos de cozinha e cubra sempre com mais material seco.
  3. Revolva a cada poucos dias para entrar ar.
  4. Mantenha úmido como uma esponja torcida: nem seco, nem encharcado.
  5. Em cerca de 3 meses, o composto escuro e sem cheiro está pronto.
Composteira caseira em camadas de material seco e restos de cozinha

Evite carnes, laticínios, óleo e fezes de animais domésticos. Eles atraem bichos e causam mau cheiro.

Na cidade, o caminho passa por três decisões da prefeitura:

  • Separar na fonte. Sem coleta diferenciada do orgânico, o material chega misturado e contaminado, e o composto perde valor.
  • Começar pelos grandes geradores. Feiras livres, Ceasa, restaurantes, escolas e podas urbanas dão volume alto e material limpo.
  • Escolher a escala certa. Pátios de leiras, composteiras comunitárias em bairros e pontos de entrega voluntária podem conviver. Não é preciso esperar uma grande usina para começar.

Conclusão: o orgânico é a peça que falta

O Brasil discute há anos o fim dos lixões, mas quase sempre pela ótica do destino final. A compostagem muda a pergunta: em vez de onde enterrar, o que deixar de enterrar.

Do ponto de vista da engenharia sanitária, é uma das medidas de melhor relação custo-benefício disponíveis. Exige pouca tecnologia, reduz chorume e metano e devolve ao solo o que saiu dele. O que falta é decisão de gestão e coleta separada.

E você, leitor? Sua cidade tem coleta de orgânicos ou alguma composteira comunitária? Conte nos comentários.

Fontes

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