O CUSTO DA REABILITAÇÃO DO SISTEMA DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA E DA IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA DE ESGOTO DE VÁRZEA GRANDE

Para atendimento do Marco Legal do Saneamento

Por Jorcy Aguiar

Para cumprir o Marco Legal do Saneamento até 31 de dezembro de 2033, Várzea Grande precisa investir de R$ 1,8 bilhão a R$ 2,8 bilhões em água e esgoto, segundo o estudo da Fipe para o novo Plano Municipal de Saneamento. O esgoto é o maior desafio: a cidade trata o esgoto de apenas 16,6% da população e terá de chegar a 90% em sete anos.

Na água, o problema é outro. A cobertura já chega a 97,6%, mas cerca de 60% da água tratada se perde antes de chegar ao consumidor. A tese desta reportagem, construída a partir de estudos de engenharia sobre o sistema, é que a água se resolve primeiro com hidrometração de qualidade, fiscalização intensa e reabilitação das ETAs, e não com novas estações. Só a recuperação completa das duas grandes unidades de produção, na Av. Júlio Campos e na Av. Ulisses Pompeu de Campos, custa R$ 6,86 milhões, menos de 1% do que o plano prevê para a água.

A Lei nº 14.026/2020 exige que 99% da população tenha água potável e 90% tenha coleta e tratamento de esgoto até o fim de 2033. Os contratos também devem prever redução de perdas e continuidade do serviço (gov.br).

O paradoxo: água que sobra na produção e falta na torneira

Várzea Grande produz água suficiente para a população atual, mas perde mais da metade no caminho. As seis unidades de produção somam 1.530 L/s de capacidade nominal. Mesmo assim, o abastecimento é intermitente em vários bairros.

IndicadorValorFonte
População total314.627 hab.SINISA 2024
População atendida com água303.983 hab. (96,6%)SINISA 2024
Volume produzido14.979.000 m³/anoSINISA 2024
Perdas na distribuição59% (SINISA 2024); 60% (Fipe); 67,39% (TAC Água)SINISA, Fipe, TAC
Índice de hidrometração declarado83,9%SINISA 2024
Hidrômetros funcionando bemcerca de 25%TAC "Aliança pela Água"
Ligações e economias formais65.000 a 75.000DAE / SNIS
Ligações clandestinas estimadas37.000 a 40.000DAE

Os dados das ETAs mostram onde está o problema. Com perda reduzida a 30%, as 6 unidades entregariam 92,5 milhões de litros por dia à rede. Dividido pelas 75.000 economias formais, isso daria 352 L por habitante por dia, mais que o dobro do recomendado (110 a 150 L/hab/dia). Na prática, a água abastece as 37 mil a 40 mil ligações clandestinas, que consomem sem pagar e sem medir.

Com consumo controlado de 150 L/hab/dia, o sistema atual atenderia até 176.256 economias regularizadas. São 101.256 ligações a mais que hoje, sem construir nenhuma nova estação de tratamento (O paradoxo do desabastecimento em Várzea Grande).





Fonte: O paradoxo do desabastecimento em Várzea Grande (jul/2026) e DAE · 3 indicadores

O diagnóstico não é novo. O resumo do PMSB de 2014 já apontava perdas de cerca de 75%, hidrometração de 55% com só 25% dos medidores funcionando e intermitência no atendimento. O documento recomendava reduzir a captação de 969 L/s para cerca de 540 L/s apenas com micromedição.

Hidrometração e fiscalização: o centro da solução

Nenhum investimento em Várzea Grande rende tanto quanto medir direito a água que já é produzida. O hidrômetro é a caixa registradora do sistema. Sem ele, a água vira perda, a receita não cobre a operação e os bairros sem água continuam esperando.

Hoje o quadro é o oposto. O SINISA registra 83,9% de hidrometração, mas o diagnóstico do TAC "Aliança pela Água" indica que só cerca de 25% dos medidores funcionam bem. Somam-se a isso de 37 mil a 40 mil ligações clandestinas.



Ciclo proposto de hidrometração e fiscalização · 4 etapas

Hidrômetro de qualidade, feito para o nosso calor

Na Baixada Cuiabana, cavaletes, ramais e caixas de proteção ficam ao sol a maior parte do ano. Um medidor barato e inadequado a esse calor trava, perde precisão e passa a submedir em pouco tempo. A compra precisa ser técnica, não pelo menor preço unitário:

  • Modelo aprovado pelo Inmetro, conforme a Portaria Inmetro nº 155/2022, com classe metrológica alta. O medidor precisa registrar vazões baixas, que é como as caixas d'água das casas enchem.
  • Classe de temperatura compatível com o clima local. Pela norma internacional de medidores de água (OIML R 49), a classe T30 cobre água até 30 °C. Para cavaletes expostos ao sol, deve-se especificar classe superior, como a T50.
  • Materiais resistentes ao calor e à radiação UV, relojoaria selada (IP68), cinta antifraude e proteção contra ímãs.
  • Testes comprovados: aprovação de modelo, ensaio de lote por amostragem com rejeição do lote inteiro em caso de falha, e ensaio de durabilidade acelerada em laboratório independente.
  • Instalação padronizada: cavalete e caixa de proteção padrão, troca programada do parque e verificação periódica em bancada, por amostragem.

Fiscalização regional, terceirizada e paga por produtividade

O passivo de 37 mil a 40 mil ligações clandestinas não se resolve com campanhas pontuais. Exige fiscalização permanente, com metas e estímulo financeiro:

  • Fiscais regionais. A cidade é dividida em regiões alinhadas aos setores de abastecimento (DMCs), cada uma com equipe fixa, que conhece as ruas e responde pelos resultados.
  • Terceirização especializada. Empresa contratada com metas por região: ligações clandestinas eliminadas, fraudes comprovadas, hidrômetros trocados e volume recuperado e faturado.
  • Remuneração por produtividade. Os fiscais recebem uma parcela fixa e uma parcela adicional por resultado, paga só sobre o que for comprovado e passar a ser faturado.
  • Controle. Cada ocorrência é registrada com foto e localização. O DAE audita por amostragem e faz rodízio das equipes entre regiões, para evitar acertos com usuários.
  • Regularização com educação. Tarifa social para quem não pode pagar e orientação sobre consumo e vazamentos internos, como válvulas de descarga e boias de caixa d'água.

O programa se paga. Uma economia regularizada, com 150 L/hab/dia e 3,5 moradores, consome cerca de 192 m³ por ano. À tarifa média de R$ 4,20/m³, isso dá cerca de R$ 805 por ano. Regularizar 37 mil a 40 mil ligações geraria de R$ 30 milhões a R$ 32 milhões por ano, o equivalente ao déficit que levou o DAE à calamidade financeira.

As ETAs da Av. Júlio Campos e da Av. Ulisses Pompeu de Campos

A reabilitação completa das 7 ETAs das duas unidades de produção custa R$ 6.861.120,20 e devolve ao sistema 785 L/s de capacidade nominal. O valor vem do orçamento paramétrico do relatório técnico elaborado em julho e agosto de 2026 para contratação integrada (Lei nº 14.133/2021). Dá cerca de R$ 8.740 por litro por segundo recuperado.

O relatório encontrou as unidades com perda grave de eficiência por desgaste. Nos floculadores há curto-circuito hidráulico. Os filtros perderam parte do leito de seixo, areia e antracito. Os módulos de decantação estão colapsados.

UnidadeETACapacidadeProblema principalIntervenção
UP I – Av. Júlio CamposETA 1 (concreto)300 L/s, 5 filtrosFloculador com curto-circuito; filtros sem parte do leitoChicanas em madeira itaúba; fundo falso com crepinas/tubos inox (ranhura 0,50 mm); leito novo
UP I – Av. Júlio CamposETA 2 (metálica)100 L/sPlacas de PVC do decantador colapsadas; oxidaçãoHidrojateamento e pintura epóxi; 180 m³ de módulos lamelares; leito novo
UP II – Av. Ulisses PompeuETA 1 (concreto)250 L/s, 6 filtrosFloculador mecânico com só 2 de 6 eixos funcionando4 motorredutores novos com inversor; fundo inox; leito novo
UP II – Av. Ulisses PompeuETA 2 (metálica)45 L/s, 4 filtrosFundo de placa de aço corroídoFundo inox; complemento de lamelas; leito novo
UP II – Av. Ulisses PompeuETAs 3, 4 e 5 (metálicas)30 L/s cada, 1 filtro cadaParede furada entre ETA 3 e ETA 4; leitos esgotadosCaldeiraria e solda; recuperação de calha; leito novo
Frente de trabalhoValor (R$)
Projetos, diagnósticos e licenciamento78.898,43
UP I – Av. Júlio Campos (400 L/s)3.231.307,52
UP II – Av. Ulisses Pompeu de Campos (385 L/s)3.550.914,25
Total, com BDI de 25% e impostos6.861.120,20

O pagamento é feito por evento: cada ETA só é paga depois de concluída, testada e operando na vazão de projeto. O plano de ataque exige obra escalonada, filtro por filtro, sem parar o abastecimento.

Na mesma Av. Júlio Campos, a interligação de reservatórios que tira um reservatório de operação foi orçada em R$ 170.499,00, em julho de 2026, com base SINAPI-MT.

Quanto custa reabilitar o sistema de água

O estudo da Fipe estima de R$ 800 milhões a R$ 1,3 bilhão para a água, com horizonte até 2060 (VG Notícias). O pacote inclui intervenções em 7 captações e reforma de 8 ETAs. Para chegar aos 99% de 2033, são de R$ 114 milhões a R$ 186 milhões por ano a partir de 2027, se o valor fosse antecipado.

ItemValorSituação
Reabilitação das 7 ETAs (UP I e UP II)R$ 6,86 milhõesRelatório técnico e orçamento, 2026
Interligação de reservatórios – Av. Júlio CamposR$ 0,17 milhãoOrçamento SINAPI, jul/2026
Adutora, 5 reservatórios e equipamentos (DAE)R$ 36,36 milhõesEm execução ou concluído (Conexão MT)
TAC "Aliança pela Água" (Governo de MT)até R$ 60 milhõesTeto, ainda não repassado
Universalização da água (estudo Fipe)R$ 800 milhões a R$ 1,3 bilhãoEstimativa até 2060

A ordem dos investimentos importa mais que o tamanho. A reabilitação das ETAs custa entre 0,5% e 0,9% do valor previsto para a água e recupera 785 L/s.

O resto do dinheiro deve ir primeiro para a distribuição:

  • hidrômetros de qualidade, adequados ao calor local e com testes comprovados, na troca em massa do parque;
  • fiscalização intensa, com fiscais regionais terceirizados e remunerados por produtividade, para eliminar as ligações clandestinas;
  • macromedição e pesquisa pitométrica;
  • setorização em distritos de medição e controle (DMCs);
  • válvulas de controle de pressão;
  • educação para o consumo e tarifa social.

Novas ETAs só se justificam depois que as perdas caírem.

O caixa do DAE não comporta esse esforço sozinho. O Decreto nº 69, de 15 de julho, declarou calamidade financeira na autarquia por 180 dias, com déficit de R$ 28,7 milhões.

Quanto custa implantar o sistema de esgoto

O esgoto vai exigir de R$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhão, a maior parte do investimento. Para sair de 16,6% para 90% de coleta e tratamento, cerca de 231 mil moradores precisam ser ligados à rede até 2033. Isso dá de R$ 4.330 a R$ 6.500 por habitante e de R$ 143 milhões a R$ 214 milhões por ano, a partir de 2027.

IndicadorHojeMeta
População com coleta de esgoto19,1% a 30% (conforme a fonte)—
População com coleta e tratamento16,6%90% até 2033 (Marco Legal)
Extensão da rede coletora403 km1.584 km (+1.181 km)
ETEs22, com 13 operando (DAE, set/2025); Fipe: 12 a reformar e 12 inoperantes ou a desativar—
Famílias sem rede de esgotocerca de 57 mil—

Fontes: estudo da Fipe (Midiajur, Circuito MT) e DAE (RDNews).

A meta do próprio DAE não alcança a lei. Em setembro de 2025 a autarquia anunciou o objetivo de chegar a 70% de cobertura até dezembro de 2033, 20 pontos abaixo dos 90% exigidos.

A obra mais adiantada mostra o tamanho do atraso. A ETE Santa Maria, no Costa Verde, foi lançada em 2013 e parou com 13% executados. Em 21 de outubro de 2026, um acordo destravou a obra, que ainda depende de aprovação do Plenário do TCE-MT, de orçamento atualizado e de nova licitação. A primeira etapa vai atender cerca de 63 mil moradores em 15.783 imóveis, com R$ 23 milhões do PAC parados desde 2013 (Circuito MT).

Em 2014, o PMSB já havia estimado R$ 667,4 milhões para o esgoto, contra R$ 193,3 milhões para a água, em preços da época. A proporção entre esgoto e água mudou pouco. O que mudou é o prazo: agora há data na lei.

A conta total e o prazo de 2033

A conta fica entre R$ 1,8 bilhão e R$ 2,8 bilhões no estudo da Fipe. O TCE-MT trabalha com faixa de R$ 2,03 bilhões a R$ 3,2 bilhões. Para cumprir o Marco Legal, seriam de R$ 257 milhões a R$ 400 milhões por ano entre 2027 e 2033. Isso é de 9 a 14 vezes o déficit anual do DAE.



Fontes: estudo da Fipe (2026), Lei nº 14.026/2020 e DAE (set/2025)

ComponenteInvestimento estimadoPor ano até 2033
ÁguaR$ 800 milhões a R$ 1,3 bilhãoR$ 114 a 186 milhões
EsgotoR$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhãoR$ 143 a 214 milhões
TotalR$ 1,8 bilhão a R$ 2,8 bilhõesR$ 257 a 400 milhões

O valor anual supõe que todo o investimento seja feito até 2033. O estudo da Fipe distribui parte dele até 2060, o que deixa a meta legal de 2033 fora de alcance sem um forte aporte inicial.

A prefeitura aposta na concessão dos serviços. O processo começou com um PMI em janeiro de 2025, e o novo PMSB foi à audiência pública em 12 de agosto de 2026. A modelagem ainda precisa passar pela Câmara e pelo TCE-MT antes da licitação.

Três pontos devem orientar a decisão:

  1. Medir e fiscalizar antes de tudo. Hidrômetros aprovados pelo Inmetro, adequados ao calor e com lotes testados, e fiscalização permanente por fiscais regionais terceirizados, pagos por produtividade. Com perda de 30%, a produção atual atende até 176 mil economias, e só a regularização das clandestinas renderia cerca de R$ 30 milhões por ano.
  2. Recuperar antes de ampliar. As ETAs das avenidas Júlio Campos e Ulisses Pompeu de Campos podem ser reabilitadas por R$ 6,86 milhões. O pagamento só sai com cada estação testada na vazão de projeto.
  3. Concentrar o grosso no esgoto. É onde está a maior distância da meta: de 16,6% para 90%, com 1.181 km de rede nova e a recuperação de metade das ETEs.

Qualquer que seja o modelo, o contrato precisa ter metas anuais de cobertura e de redução de perdas. Sem elas, a meta de 2033 vira só uma data no papel.

Fontes

Documentos do autor

  • Anteprojeto de Engenharia, Termo de Referência e Orçamento Paramétrico para a reabilitação das ETAs da Av. Júlio Campos e da Av. Ulisses Pompeu de Campos (julho e agosto de 2026).
  • Orçamento da interligação de reservatórios da ETA da Av. Júlio Campos (julho de 2026).
  • Levantamento de dados operacionais do DAE Várzea Grande, com base no SINISA 2024 (julho de 2026).
  • O paradoxo do desabastecimento em Várzea Grande, publicado no blog em 9 de julho de 2026 (jorcyaguiar.com).
  • Resumo do Plano Municipal de Saneamento Básico de Várzea Grande de 2014.

Referências públicas

Valores por ano são cálculos desta reportagem: investimento total dividido por 7 anos (2027–2033). População a atender no esgoto = (90% − 16,6%) × 314.627 habitantes.

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