REDE DE DISTRIBUIÇÃO POR QUADRAS
Por Jorcy Aguiar
Em 1981, eu tinha seis anos de saneamento. Comecei no setor em 1975, e muita coisa ainda era novidade. Mas uma constatação já estava clara para mim: um dos itens que mais pesavam no custo de um sistema de abastecimento de água era a rede de distribuição. São quilômetros de tubos, conexões, escavações e ligações. Cada metro de rede assentado custava caro, e custava mais a cada mês.
O cenário: uma inflação que corroía qualquer orçamento
Para entender a preocupação daquela época, é preciso lembrar o país em que trabalhávamos.
- 1980: pela primeira vez, a inflação brasileira passou dos 100% ao ano no índice geral de preços (IGP-DI), chegando perto de 110%. As causas foram o segundo choque do petróleo (1979), a crise da dívida externa e os reajustes salariais indexados.
- 1981: começou uma recessão, com queda do PIB. A inflação diminuiu um pouco, mas continuou perto de 95% ao ano.
Nesse ambiente, um orçamento de obra ficava velho em poucas semanas. A pergunta que me fazia todos os dias era simples: como levar água a mais gente gastando menos?
A proposta apresentada em Fortaleza
Foi com essa pergunta na cabeça que escrevi o trabalho “Redes de Distribuição de Água por Quadras – Alternativa de Baixo Custo”. Ele foi o tema da minha apresentação num painel do 11º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental da ABES, em Fortaleza (CE), em setembro de 1981.
A ideia era mudar o método tradicional. Em vez de redes no meio das ruas, dimensionadas para diâmetro mínimo de 50 mm, a proposta era:
- uma rede em anel por quadra, assentada na calçada e contornando o quarteirão, em tubos de 32 ou 40 mm;
- alimentadores levando a água até cada bloco de quadras;
- ramais curtos e baratos, com escavação rasa e menos interferência na rua;
- uma válvula de fechamento por quadra, para que um vazamento ou um reparo afete só aquele quarteirão, e não o bairro inteiro.
Exemplo do livro: planta de 16 quadras com os anéis, os alimentadores e as curvas de pressão, e o corte típico da rua.
O ponto central: o que o projeto prevê e o que a operação mostra
O trabalho nasceu da diferença entre a prancheta e o campo. O projetista calcula a rede com um consumo por habitante bem definido. Mas, sem hidrômetro ou limitador de consumo na ligação, esse número não acontece na prática.
Nos testes de campo, uma ligação comum de ½", sem medição, com 15 metros de coluna d’água de pressão, entregava cerca de 38 mil litros por dia. Isso é o consumo de 77 casas com hidrômetro. A consequência é conhecida: falta d’água nas partes altas, rodízio, registros de manobra e obras de ampliação que não resolvem o problema.
A conclusão do trabalho continua atual:
“Em sistemas não medidos, nada se realiza do que é projetado.”
Por isso, o livro propõe controlar a vazão de cada ligação pelo tamanho do furo na rede, conforme a pressão do local, e exigir caixa d’água em cada imóvel. Com o consumo de cada ligação limitado, a rede pode ser calculada com diâmetros bem menores.
Quanto se economiza
O livro compara orçamentos de 16 quadras. A rede por quadra em 32 mm saiu cerca de 13% mais barata que a rede convencional em 50 mm. A economia vem do diâmetro menor, da escavação mais rasa e de menos peças especiais. E o ganho vai além do custo da obra:
- os vazamentos são isolados e consertados quadra a quadra;
- a obra pode ser feita por etapas, sem interromper o abastecimento;
- o modelo se adapta a mutirões, em que cada quadra é um grupo independente;
- a rede já nasce setorizada, o que facilita o controle de perdas.
O livro também traz a planilha eletrônica de cálculo que desenvolvi depois, em 1996, para automatizar o dimensionamento. Traz ainda cartazes de mobilização, a figura do “fiscal de quadra” e fotos de campo das soluções aplicadas.
Por que esta ideia não avançou?
Talvez por falta de conhecimento da maioria dos projetistas, que ainda segue o estilo acadêmico como regra: diâmetro mínimo fixo, rede no eixo da rua e cálculo por consumo por habitante, mesmo onde não há hidrômetro. A proposta exigia mudar essa forma de pensar e juntar projeto, operação e participação da comunidade.
Hoje, com mais de cinco décadas dedicadas ao saneamento, decidi tornar público este conteúdo histórico. Muitos dos problemas que motivaram o trabalho em 1981 continuam presentes nas nossas cidades: rede cara, ligação sem controle, desperdício e falta d’água no ponto alto.
E hoje? O modelo atualizado
O livro reflete o seu tempo. Em 1981, com inflação perto dos 100% ao ano e pouco dinheiro, a palavra de ordem era enxugar o projeto. Diâmetros, peças e até o hidrômetro eram itens a reduzir ou adiar. Daí vieram as redes de 32 e 40 mm e o controle de cada ligação pelo furo calibrado na rede.
A essência da proposta, porém, continua válida e pode ser adotada hoje, com dois ajustes importantes:
- Hidrômetro de qualidade em todas as ligações. O furo calibrado e o redutor de consumo foram soluções de emergência para uma época sem medição. Hoje, o controle das ligações deve ser feito por hidrômetros de boa classe metrológica, bem instalados e trocados periodicamente. A frase do livro continua verdadeira: sem controle das ligações, nada se realiza do que é projetado. O que muda é o instrumento: o controle passa a ser feito pela medição, e não pela restrição.
- Diâmetro mínimo de DN 50 nas redes das quadras. Os anéis de quadra devem seguir a NBR 12218 – Projeto de rede de distribuição de água para abastecimento público, que fixa o DN 50 como diâmetro mínimo dos condutos secundários. Devem também respeitar os limites de pressão da norma: no máximo 400 kPa (cerca de 40 mca) de pressão estática e no mínimo 100 kPa (cerca de 10 mca) de pressão dinâmica.
O que permanece atual e vantajoso no modelo:
- a rede na calçada, contornando a quadra, com ramais curtos e menos interferência no leito da rua;
- uma válvula por quadra, que isola vazamentos e manutenções sem desabastecer o bairro;
- a setorização desde o projeto, ou seja, a rede já nasce dividida em pequenos setores, o que facilita a macromedição, o balanço hídrico e o combate às perdas, hoje exigências do novo marco do saneamento;
- a obra por etapas, quadra a quadra, adequada a loteamentos e à recuperação de redes antigas.
Em resumo, a concepção da rede por quadras continua sendo uma boa alternativa. Os componentes é que devem ser os de hoje: hidrômetro em todas as ligações e DN 50 como diâmetro mínimo, conforme a norma.
Baixe o livro
O livro completo, com textos, roteiro de cálculo, figuras, orçamentos comparativos, a planilha de 1996 e o registro fotográfico, está disponível gratuitamente:
👉 Baixar o livro “Rede de Distribuição de Água por Quadras” (PDF)
E fica o convite: a planilha de dimensionamento atualizada, com orçamento, será disponibilizada em breve aos membros do canal do WhatsApp “JORCY AGUIAR – SANEAMENTO”.
Jorcy Aguiar é engenheiro civil e sanitarista, com mais de cinco décadas de atuação em operação, projeto e gestão de sistemas de água e esgoto.

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